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História e Patrimônio 03.11.2017 — 7:00 am

A origem da Praça da Liberdade e sua busca por uma nova vocação

Paola Carvalho é jornalista, coautora do livro Casa e Chão: Arquitetura e Histórias de Belo Horizonte, criadora do projeto Chão Que Eu Piso e colunista do jornal Estado de Minas

Belo Horizonte, cidade planejada no fim do século XIX para abrigar a capital do Estado de Minas Gerais, transferida da então sede Vila Rica (Ouro Preto), traz em sua história, que completa 120 anos em dezembro, mudanças que transformaram rapidamente a sua paisagem. Uma rotina mais atenta a seus caminhos, especialmente dentro do limite da Avenida do Contorno e redondezas, mostra como foi construída e vivida por seus moradores. Sendo mais específica ainda, a Praça da Liberdade torna-se cada vez mais um núcleo onde podemos observar como os estilos arquitetônicos e as funcionalidades das edificações se sobrepõem ao longo da história, permitindo a construção de uma linha do tempo repleta de marcos, que vão do Palácio do Governo, com seus jardins inspirados no Palácio de Versalhes, ao pós-moderno Rainha da Sucata, como foi batizado pelos belo-horizontinos e onde hoje funciona o programa Hub Minas Digital.

No ponto mais alto da cidade planejada pelo engenheiro Aarão Reis, em um poeirento planalto, foi erguido entre 1894 e 1897, o centro do poder, o Palácio da Liberdade, que tornou-se a sede administrativa do governo, cercado de imponentes edificações, onde funcionavam as secretarias de Estado. As primeiras construções da nova capital obedeceram à tendência da época, o estilo eclético com elementos neoclássicos. O que havia de mais moderno no Velho Mundo e nas Américas foi trazido para cá, embora seja difícil cravar o que foi importado, copiado, inspirado, ou feito aqui.

O art déco, introduzido a partir dos anos 1930, promoveu uma releitura das fachadas com elementos decorativos geométricos, substituindo a pintura pelo pó de pedra. O Palácio Cristo Rei, sede da Arquidiocese de Belo Horizonte, projetada pelo neoplasticista Raffaello Berti, é um belo exemplo. Ao lado dele, na outra esquina, uma das edificações do tempo da fundação da cidade foi derrubada para uma outra construção. O projeto, polêmico em sua época, é hoje uma das principais referências de arquitetura moderna no Brasil. Sim, estou falando do Edifício Niemeyer.

O então prefeito Juscelino Kubitschek, na década de 1940, convidou Oscar Niemeyer para projetar o Conjunto Arquitetônico da Pampulha (declarado Patrimônio Mundial da Humanidade em 2016) e, dez anos depois, com a sua assinatura, foi erguido outro expoente na Praça da Liberdade. Aliás, não só esse. Também projeto do arquiteto, foi inaugurada a Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, que ele passou a renegar em razão de mudanças promovidas ali, mesmo que seus traços característicos sejam bem evidentes.

Nos anos 1980, projetado em estilo pós-moderno pelos arquitetos Éolo Maia e Silvio Podestá, foi erguido o Centro de Apoio Turístico Tancredo Neves (muito por causa da feira de artesanato e arte que acontecia ali, depois transferida para a Avenida Afonso Pena). Já abrigou o Museu de Mineralogia Professor Djalma Guimarães e hoje, além de ser o Centro de Informação ao Visitante, é a sede do Hub Minas Digital, ligado à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Sedectes), que vai promover o encontro permanente de startups com as empresas mineiras.

Conhecido por Rainha da Sucata, a construção do edifício foi mais um caso polêmico envolvendo o complexo arquitetônico da Praça da Liberdade e que agora assumiu a responsabilidade de contar a história daquele tempo. O apelido originou do uso, como revestimento, de chapas de aço, que com oxidação controlada passa o aspecto de ferrugem. No caso, interpretada como sucata. É bem verdade que nesta época, com arquitetura “incompatível” com o porte da praça, já existiam o Edifício Xodó, de Sylvio de Vasconcellos, e o Ipsemg, de Raphael Hardy (hoje em reforma para o curso de design da Universidade do Estado de Minas Gerais, a UEMG).

Com a criação da Cidade Administrativa, em 2010, no Norte de Beagá, a Praça da Liberdade perdeu o valor simbólico de sede do governo e transformou-se no Circuito Cultural da Praça da Liberdade. Os prédios destinados às secretarias de Estado, passou a abrigar o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), o Memorial Minas Gerais Vale, o Museu das Minas e do Metal Gerdau, o Centro de Arte Popular Cemig, a Casa Fiat de Cultura, entre outros equipamentos culturais.

Como destaca Michele Arroyo, presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG), a capital, em sua trajetória, vive transformações intensas que nos colocam diante de infinitas possibilidades de leitura de sua história. Como espaço de convivência, encontros, desencontros e tensões, são as permanências e mudanças que transformam todo o material em patrimônio cultural. A cidade tem como valor não uma paisagem homogênea, referenciada em um tempo, mas ruas, praças, casas e edifícios que expressam vivências diversas presentes na heterogeneidade de seus lugares. Preservar suas materialidades e subjetividades proporciona novos caminhos para compreender a sua história.

 

 

Paola Carvalho é jornalista, coautora do livro Casa e Chão: Arquitetura e Histórias de Belo Horizonte e criadora do projeto Chão Que Eu Piso. Já passou pelas redações dos jornais Folha de São Paulo, Metro SP e Estado de Minas, e da revista Veja BH, onde publicava o blog Cenas Urbanas. Hoje assina a coluna Fora da Caixa, publicada todo sábado no jornal Estado de Minas, e conduz a Conexão Leopoldina. Venceu prêmios jornalísticos de instituições como Crea, Sebrae, Apimec, Senai e Ministério Público de Minas.

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