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Arquitetura 31.10.2017 — 6:00 pm

O futuro da cidade e dos edifícios para os maiores de 60 anos

Léo Coutinho é escritor e jornalista, membro do Conselho Participativo Municipal na Prefeitura Regional de Pinheiros

Na arquitetura, mais espaço para as áreas de circulação, escadarias com degraus amenos ou rampas, janelas amplas para melhor ventilação e luminosidade, piso antiderrapante, atenção à ergonomia desde as tomadas e interruptores, passando pelo banheiro e chegando à cozinha.

No urbanismo, diminuição da necessidade do carro com acesso fácil ao transporte coletivo, prioridade ao pedestre, calçadas acessíveis, bancos com encosto e áreas de estar, banheiros públicos, praças e jardins ocupados, serviço e comércio disponíveis, equipamentos de cultura e lazer, como cinema, teatro, museus, bares, cafés, piscina, quadras e aparelhos para atividade física.

Na decoração, menos cantos vivos para evitar hematomas e facilitar a limpeza, tapetes que não escorregam, boxe de acrílico por maior segurança, iluminação com balizadores – como aquelas da infância – para orientar o caminho do banheiro, ou da geladeira, de madrugada.

Parece interessante? Pois a notícia boa é que, no mundo todo, o mercado imobiliário trabalha com atenção a cada um desses pontos. Não que os incorporadores estejam querendo comprar um imóvel no céu. Até pelo contrário, estão se preparando para continuar vendendo aqui na Terra.

O fenômeno é fruto de um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU) prevendo que em 2050 o número de idosos vai superar o de jovens pela primeira vez na história. A tendência é mais acentuada nos chamados países desenvolvidos, onde há melhor qualidade de vida e expectativa de longevidade. Ainda assim o Brasil precisa correr com a lição de casa, porque dentro de sete anos teremos a sexta população de idosos no mundo.

Presidente do Conselho Consultivo do Sindicato da Habitação (Secovi-SP), Cláudio Bernardes falou ao blog Radar Imobiliário do Estadão: “Há pouco tempo éramos uma nação jovem. Então, esse é um conjunto que tem potencial enorme de crescimento, mas não forma, hoje, escala suficiente de clientes.”

Ouso discordar. Não porque desde os verdes anos eu tenha a sensação de já ter nascido velho. Mas porque o conjunto de medidas me parece ideal para todas as idades. Quem não deseja viver num ambiente conforme o descrito nos três primeiros parágrafos é ruim da cabeça. E, se um dia ficar doente do pé, vai mudar de opinião.

Outro ponto que merece destaque e objeção é a ideia de criação de guetos para idosos. Primeiro porque nada garante que um jovem próspero, por consideração aos mais velhos, abdique da possibilidade de viver em um lugar agradável, com boas calçadas para o carrinho do bebê, chance de trocar as horas no trânsito pelo cinema, janela na sala que não o sufoque.

Depois porque todo mundo já viu de perto a alegria mútua que a convivência entre crianças e idosos proporciona. E com a vantagem de que os processos de adoção entre netos e avós podem ocorrer nas praças, sem onerar a justiça.

Mais distante, mas não menos importante, há uma figura obrigatória neste tema. Paulo Mendes da Rocha disse em entrevista recente ao Conversa com Bial: “Você vê, o pessoal fala em casa popular e faz feia de propósito para que pareça popular (…) Popular sobre que aspecto? Vai haver um quilowatt popular que de vez em quando dá choque, a luz apaga? Não existe. Ter um telefone popular, que fala, não fala, você tem que gritar? Não existe. Ter um esgoto popular, de vez em quando fede, sai tudo para fora? Não pode. A torneira, se você abrir, as crianças morrem de disenteria ou é uma água potável?”

Se é lógico para a distância econômica e social, também deve ser para as mais distintas faixas etárias. Em conceitos básicos de habitação não pode haver distinção.
Ainda sobre o nosso arquiteto querido, vale notar que aos 89 anos Paulo vai a pé ao trabalho e volta escalando pelos bares, encontrando amigos e botando a conversa em dia. Ao Pedro Bial, diante da filha Joana, afirmou que parou de fumar. Há controvérsias, mas tanto faz. O importante é imaginar a cidade ora prometida pelo mercado imobiliário.

A última fronteira – o urbanista Anthony Ling já deve estar aflito – é a do financiamento. Ou quem paga a conta. Para os bancos, o limite para quitação imobiliária é a idade de oitenta anos e seis meses. De modo que um imóvel destinado a idosos, sendo adquirido aos setenta, teria só dez anos de prazo, elevando o valor das parcelas ao impossível.

Fábio Villas Bôas, diretor técnico da Tecnisa, maior construtora do Brasil, falou ao Estadão que há dez anos a companhia passou a pensar no tema, e que desde então uma equipe de gerontólogos, como são chamados os especialistas em idosos, participam da elaboração de projetos.

No primeiro semestre de 2018 a empresa vai lançar o primeiro produto resultado desse processo. Segundo Villas Bôas, as áreas comuns serão iguais a de um prédio qualquer, mas os quatro primeiros andares terão instalações quase hospitalares para atender os mais frágeis, e nos demais andares haverá unidades tradicionais, mas acessíveis.

A pergunta que fica é sobre a vacância e a alternância dos proprietários. E nos leva a pensar na cultura patrimonialista, já abordada no Esquina pelo vereador José Police Neto. O modelo de aluguel social, ou de interesse da sociedade, pode ser o caminho, a qualquer tempo ou idade.


Léo Coutinho
é escritor e jornalista, membro do Conselho Participativo Municipal na Prefeitura Regional de Pinheiros

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