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Arte e cultura 30.10.2017 — 10:22 pm

O que as ruas comerciais do Japão nos ensinam sobre urbanismo

Wai Austin
Leandro Ishioka é arquiteto e urbanista pela FAU-USP. Mora em Sendai e é mestrando em planejamento urbano pela Tohoku University (Sendai, Japão).

商店街 (shoutengai) é como chamamos uma rua comercial aqui no Japão. Se entendermos os ideogramas desse nome, logo compreendemos que o significado literal é de comércio (商), loja (店) e rua (街), ou seja, nada mais do que uma via repleta de lojas e comércio. Essas ruas assumem diversas formas (cobertas ou descobertas), estendem-se por longos metros ou por vastas áreas nas quatro direções e, em geral, é o coração comercial e de entretenimento de qualquer cidade japonesa onde tudo que se busca, pode ser encontrado, experimentado e comprado.

Os shoutengai, em geral, oferecem uma infinidade de lojas de diversos tamanhos que vendem produtos dos mais variados. De brechós de roupas usadas em estilo western americano a sofisticadas lojas de grifes francesas e italianas. De redes de fast food (hambúrgueres, donburis e frango frito) a restaurantes e cafés descolados que vendem bebidas feitas com os melhores grãos da Costa Rica, da Colômbia e até do Brasil. E, é claro que não poderiam faltar as inúmeras redes de farmácias, supermercados e lojas de 100¥ (1,99 japonês) que fazem parte das listas de compras diárias de qualquer cidadão.

Nos shoutengai mais tradicionais, há a atmosfera ancestral com as ruas mais estreitas e as lojas clássicas que vendem aqueles encantadores doces moldados à perfeição, bules e copos para o tradicional chá japonês, cerâmicas e vasos criados e adornados pelas mãos de artesãos e artistas locais ainda permanecem como as raras jóias desses peculiares ambientes urbanos. Isso sem contar os armazéns que vendem comidas locais, como as famosas conservas de vegetais (tsukemono), as coloridíssimas (mas caríssimas) frutas da estação e os mais variados frutos do mar da extensa costa japonesa.

Caminhar por essas vias aguça nossos sentidos e conforta nossos olhos, mas, mais importante que isso, é que trata-se de um passeio agradável, seguro e confortável. Aqui, a prioridade (como não deve nunca deixar de ser) é sempre do pedestre; carros podem atravessar nos cruzamentos, mas só se forem bem devagarzinho. Nem mesmo andar de bicicleta é permitido. O jeito mesmo é caminhar e, por sinal, anda-se muito bem por aqui.

Muitas vezes cobertas, assumindo a identidade de arcadas (ainda que mais modestas que a deslumbrante Galleria Vittorio Emanuele II, em Milão), essas ruas comerciais são também o abrigo perfeito para o pedestre em caso de chuva (ou neve). Algumas vezes, mesmo quando se tem que atravessar ruas e avenidas, as coberturas se estendem sobre os próprios cruzamentos, fornecendo ainda mais conforto e ampliando a sensação de continuidade das ruas comerciais.

Na cidade de Osaka, há a Tenjinbashisuji (天神橋筋商店街), que se orgulha de ser o shoutengai mais longo de todo país. Ela avança de norte a sul por cerca de 2,6 quilômetros (quase a Avenida Paulista), com cerca de 5 metros de largura apenas, e cruza inúmeras ruas e beira templos, parques e estações de trem e metrô. É interessante notar que nem todos os trechos são cobertos e nem todas as coberturas possuem o mesmo desenho.

Design à parte, isso, de modo algum, tira o mérito do espaço e de suas qualidades para que as pessoas sejam as grandes beneficiadas desse paraíso peatonal. Em termos urbanos, nas grandes cidades, essas vias comerciais ainda prosperam, demonstrando um modelo de comércio de rua que parece mesclar perfeitamente com o ambiente das densas cidades japonesas. Um aglomerado de lojas variadas é, sem dúvida, o destino perfeito para a dona de casa que precisa fazer as compras para o jantar, para os trabalhadores que, na volta do trabalho, precisam comprar um obento (marmita) ou comer um lamen despretensioso, ou ainda para um casal de namorados que quer se divertir num game center ou encontrar com os amigos em um karaokê. E isso tudo só andando, sem a necessidade de usar o próprio carro, tendo em vista a extensa rede de trens e metrôs que servem as grandes cidades.

Por outro lado, em cidades do interior e nas antigas e prósperas regiões das grandes cidades, a animação de vários shoutengai ficou no passado. O declínio da população, bem como o fim do boom econômico do pós-guerra, deixou ruas repletas de lojas abandonadas, portas fechadas, atendentes em idade avançada e um ar de que “Aqui ninguém passa mais”. Esse é um dos desafios urbanos da nova geração que já convive com os problemas que o envelhecimento da população e a intensa migração campo-cidade causa, superlotando os grandes centros urbanos como Tóquio e Osaka e, por consequência, esvaziando e enfraquecendo a outrora vivacidade do interior.

O desafio daqui para frente é entender as possibilidades dessas ruas e zonas, que já marcaram o ápice de muitas cidades japonesas numa época de pujança econômica. Entender que é necessário reavaliar, reocupar e reusar de forma criativa e inovadora essa imensa quantidade de lojas, prédios e espaços em pleno centro comercial é um dos desafios do urbanismo japonês contemporâneo. Ao contrário do planejamento urbano moderno, que construiu ícones e tudo que há de mais novo, como se quisesse esquecer o passado, aqui e hoje não se fala mais tanto em expandir, mas sim em transformar e otimizar. Parece ser essa a ótica do planejamento urbano do século XXI.

Leandro Ishioka é arquiteto e urbanista pela FAUUSP. Mora em Sendai e é mestrando em planejamento urbano pela Tohoku University (Sendai, Japão).

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