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Meio ambiente 30.10.2017 — 10:19 pm

Despoluir os rios é investimento, e não despesa

Procópio Gomes de Oliveira Netto é engenheiro civil pela Poli-USP, inventor e especialista em tratamento de água, esgoto e despoluição de corpos hídricos

No final de novembro será publicado Baía de Guanabara: Futuros, da editora Andrea Jakobsson. O livro traça um histórico deste cartão postal carioca e uma visão sobre qual será o futuro da Baía frente à poluição desenfreada que a assola — situação semelhante à dos rios paulistanos Tietê e o Pinheiros. Pensar neste assunto é refletir sobre como é possível atingirmos a despoluição necessária de nossos rios e quais barreiras devem ser superadas.

A resposta não é simples, mas certamente não envolve somente o saneamento básico, aquele que infelizmente só ouvimos falar quando uma enchente traz o esgoto para a porta de casa ou a falta d’água chega à torneira. As referências de evolução do saneamento, quando divulgadas, vêm em porcentagens, o que nos dá a errada impressão de que, ao atingir o numeral cabalístico 100 chegaremos lá — os rios ficarão limpos, certo? Errado!

A poluição que vemos nos rios, com toda sorte de sujeira grosseira, garrafas PET, sacos plásticos, pneus, sofás e até animais mortos; o característico odor fétido, a cor escura e opaca, além das doenças de transmissão hídrica, imperceptíveis a olho nu e não menos nocivas à população, não têm a mesma origem e, portanto, a mesma solução e abordagem.

Infelizmente, só na bacia do rio Pinheiros, em São Paulo, ainda existem cerca de 850 favelas, ou aglomerados subnormais segundo a nomenclatura do IBGE. Com as dificuldades de acesso à coleta de esgoto e resíduos sólidos, ação da gravidade faz com que, o que deveria ser descartado, chegue aos rios, que são a cota mais baixa da bacia. Estes componentes literalmente matam nossos rios, pois a ação das bactérias na decomposição da matéria orgânica consome o oxigênio da água. E impede o ciclo da macrovida aquática (peixes, anfíbios, moluscos, répteis e até mamíferos), restando apenas a microvida com superpopulação de fungos e baterias. Estes atingem quantidades milhões de vezes maiores que o aceitável, em total desequilíbrio ecológico. Geram como contrapartida a poluição da atmosfera com gases do efeito estufa, uma vez que a poluição biodegradável, na forma de carbono, segue potencializando os efeitos do aquecimento global.

Este ciclo vicioso não acaba bem. Poluímos nossos rios, perdemos a convivência com a natureza e as crianças que crescem nas cidades não conhecem um rio limpo que esteja a menos de centenas de quilômetros de casa. A natureza faz sua parte e digere essa poluição, enviando-a para a atmosfera, que aquece e nos devolve chuvas isoladas e muito intensas, combinadas a períodos longos de muita estiagem. A solução seria procurar água mais longe? Não. Temos que fazer a lição de casa: sujou, tem que limpar; se quiser água limpa, não suje a que você já tem. Não nos falta água, pois não vivemos em um deserto como Israel. Não precisamos dessalinizar água do mar, o que falta é despoluir as águas que já temos.

Podemos dividir a poluição dos rios em duas origens: o esgoto e a poluição difusa. A primeira está nas porcentagens de que ouvimos falar. Já a poluição difusa é aquela que não entra nas redes de esgoto e segue para as tubulações de drenagens, bueiros, galerias, córregos e rios. Em muitos casos, representa mais de um terço daquela poluição com a qual ainda somos obrigados a conviver, quase como na idade média.

Os carros tendem a se tornar totalmente elétricos em alguns anos e outras grandes mudanças têm ocorrido durante apenas uma geração. Ainda assim, a poluição não sai de nossas vidas. Os métodos convencionais de coleta, afastamento e tratamento de esgoto são insuficientes. Isso se torna evidente especialmente em cidades como São Paulo, que não possuem rios muito caudalosos como o Tâmisa, em Londres, e o Sena em Paris, com enormes capacidades de diluir poluentes.

O poder público, em todas as esferas, deve enxergar a despoluição dos rios como investimento, e não como despesa. Imagine a Baía de Guanabara ou os rios Tietê e Pinheiros minimamente despoluídos, permitindo lazer, navegação, redução da emissão dos gases de efeito estufa, valorização imobiliária e turismo. Quanto potencializariam a economia local? Faríamos um bem a nós mesmos e ao planeta.

As soluções técnicas de engenharia já existem há muitos anos, com casos de sucesso no Parque Ibirapuera, na represa Guarapiranga, na praia do Flamengo (Baía de Guanabara), nas Lagoas de Jacarepaguá ou na Lagoa da Pampulha, contribuindo para a recuperação destes mananciais. É possível tratar os córregos poluídos que fluem para nossos rios, através das chamadas Unidades de Tratamento de Rios (UTR’s). Elas são capazes de remover o lixo urbano e os sedimentos que são carreados pelo fundo do rio, limpando as águas que passam a fluir com oxigênio, permitindo o retorno da vida aos rios.

Reverter esse quadro começa pela necessária mobilização da sociedade civil. Cada indivíduo deve exigir que sua casa tenha rede de esgoto, cuidar para que seu lixo não seja jogado na rua, cobrar o poder público para que priorize a solução deste problema. A dignidade, o bem-estar, a saúde e a preservação do meio ambiente dependem disso.


Procópio Gomes de Oliveira Nett
o é engenheiro civil pela Poli-USP, inventor e especialista em tratamento de água, esgoto e despoluição de corpos hídricos

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