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Arquitetura 26.10.2017 — 10:03 pm

Como contar a história de uma cidade através de suas janelas

Nara Coló Rosetto é arquiteta e urbanista, ativista e artista visual.

A janela é um elemento corriqueiro de nosso cotidiano. Está presente nos mais distintos tamanhos e tipos, em nossas casas, locais de trabalho e nos transportes sobre rodas.

Em seu significado formal, elas são “aberturas nas paredes dos edifícios, para deixar passar a luz e o ar”, e existem cálculos para determinar as medidas mínimas que garantam a salubridade de acordo com a dimensão de cada ambiente. Engenheiros e arquitetos que projetam edifícios em série podem encará-las apenas como um recurso que permite o funcionamento adequado do espaço interior.

As janelas como conhecemos surgiram de avanços de engenharia e tecnologia. De vazios abertos nas paredes, elas se desenvolveram a partir do uso de diferentes materiais (madeira, ferro, vidro, alumínio), formatos e ornamentações (bandeiras, balcões, arabescos). A presença destes elementos resgata diferentes período da história, questões culturais e costumes de época.

Mas as janelas são muito mais.

Se na sua origem linguística latina a janela é apenas uma pequena porta, hoje, seu significado é bem mais amplo. Podem representar os horários livres na agenda ou, o ambiente ocupado por cada programa aberto na tela do computador. No corpo humano, são nossos olhos.

Não à toa, as janelas encantam e inspiram tantos autores e artistas. São tema recorrente de canções (Chico Buarque, por exemplo), filmes (como A Janela Indiscreta), poemas (Charles Baudelaire) e nas artes plásticas (Salvador Dalí, Tarsila do Amaral).

Na infância, passei muitas horas inventando enredos para a janela do meu quarto, que dava para o quintal. Dali se via o varal de roupas, as janelas do quarto de minha avó e o banheiro de minha vizinha, dona Esperança. A janela instalada na porta de entrada da casa era pequena e com grades em formato de coração.

Depois que me formei em arquitetura, juntei a curiosidade lúdica às aulas de história e cultura. Em 2014, transformei o tema das janelas em um projeto, o Janelas de SP
(também aqui). Inspirada pelo americano Windows of New York, comecei a registrar em desenhos à mão livre as janelas paulistanas e que agora serão reunidos em um livro. Acredito que, ao chamar a atenção para um elemento tão banal da arquitetura, seja possível estimular as pessoas a prestarem mais atenção aos espaços percorridos. Ao caminhar pelas ruas da cidade, uma de minhas atividades favoritas, levo um caderno e canetas marcadoras para fazer os registros.

Casa na rua Silva Bueno

Janela do antigo Hospital Matarazzo

De início, a escolha das janelas esteve muito ligada à valorização de edifícios que são ícones históricos e arquitetônicos. Com o tempo, percebi que as janelas de construções sem maiores reconhecimentos poderiam ter grande valor sentimental, além do estético. Ao registrar uma delas, por exemplo, descobri que a casa em que se inseria era a última residência da Avenida São João. Uma outra despertou em meu pai o desejo de compartilhar suas histórias de infância no antigo Hospital Matarazzo, quando ia lá visitar uma tia freira que trabalhava no local.

As portas nos permitem passar de um espaço a outro — seja da sala para o quarto, da casa para a rua, da rua para o museu, para o ônibus, para o carro, para o trabalho etc. Já as janelas nos permitem passar de um tempo a outro, tomando assim o lugar da observação. A janela é um recorte, da parede e de um tempo-espaço visto através da história. Ela nos preenche de imagens e memórias, como uma moldura que delimita quadros da paisagem real, viva, mutável e nova a cada instante.


Nara Coló Rosetto
é arquiteta e urbanista, ativista e artista visual. Paulistana, vem investigando desde a graduação possibilidade de reconectar as pessoas aos espaços percorridos seja através de intervenções artísticas e efêmeras, caminhadas ou das diversas camas de história e memória ligadas a ele.

 

 

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