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Planejamento 18.10.2017 — 10:17 am

Adensamento urbano é bom para a democracia

Eduardo Zylberstajn é economista, pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) e professor convidado na EESP/FGV

Os paulistanos gastam, em média, mais 45 minutos por dia para irem de suas casas até os seus locais de trabalho. Entre ir e voltar, são em média impressionantes 1h30min. Esses números colocam São Paulo entre as metrópoles com pior mobilidade urbana no mundo. Claramente, há algo errado com a cidade quando o assunto é mobilidade. Parte do problema está na oferta de transporte público, especialmente o metrô. Mas há outro aspecto fundamental que parece fugir da percepção de boa parte dos urbanistas, arquitetos e do poder público: nossa escolha de adensamento urbano.

Os bairros mais antigos de São Paulo, como o centro ou Higienópolis, são completamente diferentes de bairros mais novos, como Vila Leopoldina, Brooklin ou Campo Belo. São Paulo teve um modelo de desenvolvimento urbano até os anos 1950 que favorecia o adensamento e o surgimento de prédios fantásticos. A partir do final daquela década, porém, diversas mudanças regulatórias e legais fizeram com que nossa cidade se transformasse numa cidade verdadeiramente caótica.

Edward Glaeser, economista de Harvard e autor do livro O Triunfo da Cidade, explica como o adensamento urbano e as cidades são talvez a principal invenção humana da era moderna. Ao diminuir distâncias, as cidades permitem o surgimento de mercados para bens e serviços muito específicos e diminuem sensivelmente o custo para trocas de conhecimento, experiências e tecnologias. Pense naquela loja de revistas em quadrinhos, de brigadeiros gourmet ou de comida vegana. Como a parcela da população que consome esses bens é muito pequena, seria extremamente custoso vendê-los no mundo do início do século XIX, onde as pessoas viviam espalhadas pelas terras agrícolas.

Hospitais e museus são outros exemplos de atividades que se beneficiam do encurtamento dramático da distância que as pessoas percorrem até esses locais. As cidades são, portanto, um mecanismo indutor do desenvolvimento social e econômico. Dessa forma, cidades bem planejadas e eficientes auxiliam no crescimento de um país. Por outro lado, cidades mal planejadas e ineficientes ajudam a explicar o atraso de muitas economias.

No Brasil em geral e em São Paulo em particular, parece haver uma repulsa ao adensamento urbano. Exemplos de políticas públicas e manifestações de urbanistas que vão na contramão dos benefícios do adensamento são abundantes. O mais recente foi uma manifestação do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) contrária à proposta da prefeitura de São Paulo de aumentar o limite de 8 andares para prédios em diversas regoes da cidade.

É verdade que o adensamento também pode trazer problemas, como poluição e aumento da criminalidade. Mas o combate desses efeitos negativos não precisa, necessariamente, passar pela limitação do uso do espaço urbano. Pensar assim é como proibir que as pessoas saiam à rua para não correrem o risco de desenvolverem câncer de pele por conta da exposição ao sol.

Há inúmeros casos de cidades que conseguiriam resolver seus problemas sem combater o adensamento. Ao mesmo tempo, é fundamental reconhecer que a limitação da oferta de moradias nas áreas centrais da cidade tem o efeito que qualquer política pública que causa escassez no mercado tem: aumento nos preços. É por esse motivo, inclusive, que choca ver políticos e partidos alinhados à esquerda defenderem planos diretores que limitam de forma tão rígida o uso do solo. Democratizar algo é torna-lo acessível, ao alcance da maioria da população. O limite ao adensamento provoca aumento no preço dos terrenos e dos imóveis de quem já habita as regiões bem localizadas. É, portanto, um mecanismo concentrador de renda. E é exatamente o oposto disso que o Brasil precisa.

Eduardo Zylberstajn é doutor em economia pela Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EESP/FGV) e pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE). É também professor convidado na EESP/FGV e consultor do Banco Mundial.

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