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Meio ambiente 17.10.2017 — 8:18 am

Mata Atlântica era floresta de árvores gigantes

Luciano Candisani / Agência Estado
Mata Atlântica atual: as espécies antigas eram ainda mais exuberantes
Ricardo Cardim é mestre em Botânica pela USP, diretor da Cardim Arquitetura Paisagística e idealizador das Florestas de Bolso para o retorno da Mata Atlântica no meio urbano

Está em cartaz no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, a exposição “Remanescentes da Mata Atlântica & Acervo MCB” , sobre as transformações da floresta ao longo do tempo. Nas últimas décadas, o bioma se tornou mais conhecido, e muitos livros foram publicados mostrando as suas mais impressionantes paisagens, orquídeas e animais que moram ali. Ao mesmo tempo, ONGs e reservas públicas e privadas foram criadas em diferentes regiões do país voltadas à sua preservação. Escolas incluíram o tema em suas currículos e grande parte da população foi sensibilizada sobre sua importância. Mas há algo importante que ainda não foi contado ainda sobre a nossa floresta costeira.

Poucos sabem, mas a Mata Atlântica original era uma floresta muito diferente da que o homem do século XXI pode ver nos poucos fragmentos que restaram, tanto em porte quanto em extensão. Raramente documentada nos séculos passados, poucos registros sobreviveram ao longo dos séculos sobre a “Caetê”, ou “mata verdadeira” na língua indígena, e não há notícias de acervos significativos sobre o assunto.

Acervo: CDPH-UEL

Jequitibá da antiga Mata Atlântica, parte da exposição do Museu da Casa Brasileira

A Mata Atlântica original era uma floresta com árvores de proporções que acreditamos só serem possíveis na Amazônia, troncos de até dez metros de diâmetro e mais de 40 metros de altura. Verdadeiros gigantes, que foram sendo derrubados nos diferentes ciclos econômicos e de penetração nas matas primárias. O que chegou ao nosso tempo, são em sua maioria “resíduos” daquela floresta original exuberante, uma sombra do passado. São matas rebrotadas ou anteriormente saqueadas em diferentes ocasiões, quando levaram suas madeiras e diferentes espécies de bichos. Quando passamos em áreas rurais e avistamos “ilhas” de Mata Atlântica viçosa, tendemos a achar que ali está um “museu-vivo” da floresta original. Um engano que não nos contam.

Essa lacuna histórica e ambiental atrapalha a compreensão da real importância da preservação e recuperação da floresta. E foi isso que nos levou a montar a exposição “Remanescentes da Mata Atlântica & Acervo MCB”. Com poucos recursos, mas com a intenção de gerar uma nova visão sobre a Mata Atlântica, propusemos algo raro na pesquisa histórica — uma expedição de pesquisa de campo durante 40 dias nas regiões dos estados de São Paulo e Paraná, em cidades que derrubaram suas florestas originais na primeira metade do século XX, em busca de fotografias, ferramentas e testemunhos que apresentassem a realidade natural de uma floresta ainda sem a mácula da civilização e sua rápida alteração sob o homem “civilizado”.

Essa exposição traz à luz os remanescentes encontrados. Não o que restou nas atuais e escassas florestas. Mas aqueles da selva original, que nossos bisavôs tiveram o privilégio de vislumbrar e também de transformar, com suas ferramentas, bois, trens e caminhões. A surpresa final da exposição é a chance do visitante conhecer a maior árvore já documentada na floresta, um jequitibá fotografado no começo do século passado, que é o dobro do maior ainda vivente.


Ricardo Cardim
é mestre em Botânica pela USP, diretor da Cardim Arquitetura Paisagística e idealizador das Florestas de Bolso para o retorno da Mata Atlântica no meio urbano

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