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ArquiteturaMercado 16.10.2017 — 8:25 am

Por que o mercado imobiliário já fez prédios tão bons?

Reprodução
Empresário e sócio da incorporadora Idea! Zarvos

O livro do jornalista Raul Juste Lores São Paulo nas Alturas: A revolução modernista do mercado imobiliário e da arquitetura nos anos 1950 (ed. Três Estrelas, 336 págs., R$ 59,90),  sobre a época de ouro da arquitetura paulistana, esclareceu muitas das minhas dúvidas sobre um tema que sempre me intrigou. Por que o mercado imobiliário foi capaz de produzir prédios tão bons naquele período e depois entrou em uma decadência de qualidade arquitetônica que perdura até hoje?

A primeira parte da pergunta está respondida de maneira brilhante no livro — e não vou aqui estragar o prazer quem estiver interessado no tema e quiser descobrir por conta própria lendo este excelente trabalho. Mas, e a segunda parte? Por que depois dos anos 1950 e 1960 o mercado imobiliário paulistano abraçou projetos de edifícios tão ruins? Acredito que o desinteresse por arquitetura e urbanismo que prevaleceu nas últimas décadas, não apenas entre empresários do setor, mas na sociedade em geral, é a resposta. Naquela época, ao menos os empresários, muito deles arquitetos, tinham um grande interesse pelo tema. Ao que parece, boa arquitetura fazia mais sucesso como chamariz de um empreendimento do que o “Lazer completo” dos lançamentos imobiliários atuais.

Enquanto a sociedade não se conscientizar da importância da arquitetura e urbanismo em nosso cotidiano, aquela época não voltará. Quando uma pessoa vai comprar um apartamento, deve se fazer pelo menos três perguntas: o prédio em que estão interessadas tem uma boa arquitetura? E aqui não é o corretor de imóveis que vai poder responder, mas alguém com certo conhecimento do assunto. Segunda pergunta: o prédio contribui em algo para melhorar a vizinhança imediata de onde se localiza? Gentilezas urbanas como tirar ou ao menos recuar o gradil da frente da calçada, deixar um banco para que os pedestres possam descansar, plantar um árvore, ou, ainda, fazer uma loja no térreo para que o bairro tenha mais opções de comércio são algumas das possibilidades.

Terceira pergunta: o prédio contribui para a diversidade de uso no bairro? Não invista em um escritório num bairro onde esse tipo de imóvel seja abundante e, por outro lado, existam poucas residências. Também não compre um apartamento em um lugar que não tenha opções de comércio e serviço por perto. Bairros que separam os usos estão condenados e seus imóveis se desvalorizarão com o tempo.

Estes conselhos não seriam necessários se a gente aprendesse conceitos básicos de urbanismo e arquitetura na escola. Como isso não acontece, cabe à sociedade fazer com que os empresários do setor, que constróem a paisagem urbana que vemos todos os dias quando saímos de casa, entendam que existe uma enorme responsabilidade quando lançam um novo prédio na cidade. Diferentemente de outros produtos de consumo, edifícios não vão para o lixo quando ficam velhos nem acabam esquecidos no fundo do armário quando saem de moda.

Um prédio pertence à cidade tanto quanto ao cidadão que assinou o contrato de compra e venda. Por isso, antes de reclamarmos dos prédios feios espalhados por aí, reflita se o que você mora tem ao menos duas das três características sugeridas acima.


Otávio Zarvos
é empresário e sócio da incorporadora Idea! Zarvos

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