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Espaços Públicos 15.10.2017 — 5:29 pm

Por que ruas importam

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Diretora-executiva do Institute pour la Ville en Mouvement (IVM) / Instituto Cidade em Movimento

Há exatos dez anos, o Instituto Cidade em Movimento (IVM, na sigla em francês, Institute pour la Ville en Mouvement) lançava o projeto de pesquisa “A rua é nossa, é de todos” que se transformou em livro e exposições em diversas cidades do mundo. O IVM incitava os especialistas de sua rede internacional a analisarem as diversas dimensões e dinâmicas deste que é o componente elementar da cidade.

Na pesquisa, analisamos os diversos usos da rua, os diferentes públicos, as ruas em mutação, as ruas que comportam diferentes formas de transporte, as intensas, as verticais. Com todas estas abordagens, buscamos demonstrar que não há como definir um protocolo universal de boas práticas. A adequação da rua é diferente para cada cidade e para o momento histórico de desenvolvimento técnico, econômico, ambiental e político de cada comunidade. Do nosso ponto de vista, a mobilidade deve ser abordada como direito e competência relacionados ao patrimônio social e cultural, e não como questão de transporte. E a rua é, por excelência, o lugar de exercício de cidadania, o meio de desfrutar de tudo aquilo que nos leva a morar em cidades: relações sociais, trabalho e comércio, desenvolvimento cultural, educação e proteção.

Grande parte do que conhecemos de civilizações antigas vem justamente da análise dos restos arqueológicos das cidades. Estudando a dinâmicas de suas ruas, podemos entender como se organizavam, como funcionava o comércio, a educação, a hierarquia de classes, seus hábitos e costumes.

Agora imaginemos as conclusões dos que estudarão nossas cidades no futuro. Analisando os níveis de poluição, o impacto no terreno, a dimensão do sistema viário e as placas e as referências de legislação, veriam que nossa civilização priorizou o transporte motorizado e que muito poucos caminhavam pela cidade. Se observassem os sinais voltados à mobilidade, só veriam sinalização de onde estacionar, limites de velocidade, existência de radar, semáforos etc. Quase nada encontrariam de orientação ou diálogo com o pedestre.

Há centenas de aplicativos que se apresentam como sendo voltados a mobilidade, mas que, em sua grande maioria, se referem apenas ao sistema de transporte motorizado. Mesmo a civilização da era da informação, não informa quase nada ao pedestre.

Os arqueólogos do futuro também poderiam concluir que poucos teriam condição de circular pelas calçadas que hoje em dia já estão em ruínas. Haveria bastante dificuldade em entender o sistema de governança das ruas tendo em vista a falta de padrão e consistência nos seus usos e formas. Finalmente, em base aos registros de violência, veriam que a rua teria se transformado em palco de uma cadeia perversa de intolerância na disputa por espaço e por “prioridade”. Na cidade da “faixa exclusiva”, pedestres disputam com ambulantes e ciclistas que disputam ônibus, que disputam com carros, que disputam com motos e assim por diante.

A rua brasileira representa hoje mais temor do que liberdade de ir e vir. Temor de não saber o caminho, de cair e se machucar, de chegar atrasado, de ser molestado, de ser atropelado, de atropelar, de ser atacado por ser gay, por ser mulher, por ser criança, por ser rico, por ser pobre, porque sim e por que não? Palco de barbárie em lugar de marco civilizatório. É hora de fazer com que a rua deixe de ser terra de ninguém e volte a ser nossa, de todos. Uma rua que nos dê sentido.

Que tipo de rua então fará das cidades acessíveis, inclusivas e sustentáveis? O desenho e gestão das ruas é um dos maiores desafios da gestão de qualquer cidade, mas a prática nos mostra que a solução não está apenas na decisão do gestor. O desenho urbano tem muito o que colaborar com a valorização da rua, promovendo a mobilidade doce, expandindo o espaço para pedestre, melhorando a sinalização, integrando comércio e serviços. A grande sacada é como chegar neste desenho que deve ser específico para cada cidade ou para cada setor dela.

Entendemos que trabalhar baseado-se em conceitos de compromisso e de espaço público são a chave do sucesso. É claro que é importante fazer uso de experiências de outras cidades, do conhecimento técnico, assim como dos dados disponíveis e suas correlações (como o big data). Mas, se buscamos superar o conflito com soluções duráveis de compartilhamento da rua, será preciso partir da reunião de todos os envolvidos na governança genuína da rua. Apenas a partir de uma reflexão envolvendo os diversos pontos de vista é que pode haver empatia – se colocar no papel do outro – e entender que todos somos, em diferentes momentos, pedestres, motoristas, passageiros, ciclistas, moradores, usuários, donos, fregueses, entregadores. Este seria um primeiro passo para um equilíbrio aceitável entre compartilhamento e divisão.

Se pudermos ir além das pesquisas e montar grupos mistos de reflexão com a participação de cidadãos comuns, de todas as esferas, e não apenas agentes públicos e ativistas, poderemos então caminhar para um compromisso democrático que permita sair da solução maniqueísta da cidade repartida em áreas exclusivas para o estágio de compartilhamento como posse comum. E a posse comum nada mais é do que fazer do espaço, um espaço público.

O espaço de todos e não do governo. Assim, se a rua é de todos nós, ao usá-la temos que levar em consideração como os outros poderão também usar. O grau de preservação revela nossa capacidade de cuidar de um bem comum. Por ser de todos, a rua precisa ser de qualidade e precisa acolher a diversidade. A sociedade complexa é aquela cada vez mais diferenciada e mutante e isto é um valor. É o terreno fértil para inovação. Isso requer ruas variadas e não apenas de um único padrão. Os modelos dogmáticos de rua ideal podem trazer alto custo social, econômico e arquitetônico. Tomar posse da rua é, enfim, ter o direito de escolher, com liberdade e autonomia, nosso melhor caminho.


Luiza de Andrada e Silva é educadora, jornalista e diretora-executiva do Institute pour la Ville en Mouvement (IVM) — Instituto Cidade em Movimento

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