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Arquitetura 15.10.2017 — 9:48 pm

Franz Heep e o mercado imobiliário

Fotos Ana Mello
Edifício Lausanne, de autoria de Heep
Marcelo Barbosa é arquiteto, sócio fundador do escritório Bacco Arquitetos Associados, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie e vice presidente da AsBea (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura) São Paulo

Uma das lembranças mais presentes da minha infância era meu pai nos levando, eu e minha irmã, para assistir à matinê dominical de desenhos animados de Tom e Jerry no Cine Metro, na Avenida São João.

Era meados da década de 60 e eu ficava encantado com os prédios do centro de São Paulo, onde, num passeio de algumas quadras, visitávamos toda a área central já adensada. Passávamos pelo Mappin, cruzávamos a rua Barão de Itapetininga com suas lojas e galerias que enchiam nossos olhos ávidos de novidades, e chegávamos à praça da República.

Eu reparava no imenso prédio construído pela comunidade italiana, o chamado Edifício Itália, maior arranha-céu brasileiro durante anos. Imponente na praça, guardião de uma modernidade que rapidamente se instalava na cidade, o Itália era ladeado pelo Copan, Esther, Jaraguá, Galeria Califórnia e Eiffel. Não me importavam os nomes, me impressionavam suas presenças e aquela nova arquitetura adequada ao tortuoso e estreito arruamento português.

Quando me formei arquiteto, desejei estudar estes prédios e me interessei principalmente pelo Itália e seu criador, o arquiteto alemão Adolf Franz Heep. Heep teve uma bela trajetória de vida antes de aportar em terras paulistanas aos 40 anos. Nasceu em 1902, próximo a Frankfurt, onde estudou arquitetura na Escola de Artes e Ofícios assimilando o princípio do projeto voltado à prática. Trabalhou como recém-formado em grandes assentamentos de moradia na Alemanha.

Em 1928, transferiu-se para Paris. Até 1932, auxiliou o arquiteto franco-suíço Le Corbusier em algumas obras residenciais, devido ao seu conhecimento sobre o trabalho prático do canteiro de obras. Foi fortemente influenciado pelo pensamento de seu mestre.

Em seguida, Franz Heep foi convidado a ser sócio do arquiteto Jean Ginsberg. Juntos constituíram um escritório de projetos e obras, incorporando os projetos residenciais. Ginsberg atuava na coordenação e na busca por clientes na burguesia parisiense enquanto Heep cuidava do projeto. A redução dos espaços internos para atender às necessidades da vida moderna, o controle de custos na obra e o uso de materiais duráveis tornaram sua produção parisiense muito valorizada até hoje.

Após a Segunda Guerra, em 1947, Heep migrou para o Brasil. Fixou-se em São Paulo, metrópole emergente onde o crescimento e a modernização eram ímãs para os imigrantes. Heep buscou emprego no escritório do arquiteto francês radicado no Brasil, Jacques Pilon, maior escritório de arquitetura da época. A afinidade pelo idioma francês e interesse de Pilon por seu trabalho, fizeram com que logo fosse contratado. Um dos primeiros projetos do escritório de Pilon de que Heep participou foi o da nova sede do jornal O Estado de S. Paulo — hoje Hotel Jaraguá — na esquina das ruas Major Quedinho e Martins Fontes. Heep propôs alterações significativas no projeto já existente, em estilo decô, trazendo uma identidade moderna ao edifício.

Em 1950, Heep deixou o escritório de Pilon para abrir o seu próprio estúdio. Atuou então quase exclusivamente com o mercado de incorporações, praticando suas experiências em imóveis residenciais elaboradas na Paris de 1930. Projetou confortáveis prédios de apartamentos situados sobretudo em Higienópolis, como o Lausanne e o Lugano – Locarno, além de outros edifícios, mais populares, com pequenas unidades no centro da cidade, chamadas de quitinetes.

Mas foi nos edifícios de escritórios — como o Itália e o São Marcos — que Heep conseguiu impor maiores desafios de implantação e de infraestrutura. A dimensão dos projetos permitiu que ele reeditasse parâmetros utilizados na sede do jornal O Estado de S. Paulo.

O edifício Itália, de 1956, a obra mais conhecida do arquiteto, foi objeto de concorrência internacional, promovida pelo Circolo Italiano. Heep e seu sócio bissexto, o engenheiro Otto Meinberg, venceram a competição. Sua proposta tirava partido de certa interpretação da legislação de uso do solo, que considerava uma relação da largura da via onde se encontrava o lote, com a altura da edificação.

Ana Mello

Edifício Itália, a obra mais conhecida de Heep

Utilizaram a Praça da República e sua extensa diagonal como referência, conseguindo elevar a torre e ganhar em área construída, propondo uma torre de 46 pavimentos. Com silhueta esguia e proporções perfeitas, a torre oval era ladeada por duas edificações menores, com oito pavimentos cada uma, dispostas junto às fachadas das edificações vizinhas.

A partir da década de 1960, o mercado imobiliário passou a priorizar as obras mais palatáveis e de fácil revenda, o que na prática inviabilizou a construção dos projetos de Heep. O arquiteto imprimiu um padrão de qualidade aos seus edifícios, que se destacam por fazerem parte da morfologia urbana, com fachadas corridas no alinhamento da rua, e ao mesmo tempo serem objetos independentes. Ele determinou ainda um tratamento diferente às fachadas. Inseriu detalhes com funções determinadas, como venezianas coloridas e floreiras, capazes de direcionar o olhar do observador, anular a competição visual da vizinhança e cortar a monotonia das fachadas em série, típicas da lâmina moderna. Seus edifícios até hoje são disputados pelo mercado e envelhecem com dignidade.

Ana Mello

Os edifícios gêmeos residenciais Lugano e Locarno

Passados mais de 50 anos desta aventura arquitetônica no prelúdio das sociedades de incorporação, responsável por edificar boa parte do centro da cidade, vem surgindo um grupo ainda restrito de novos incorporadores imobiliários. Mais esclarecidos, eles buscam contratar arquitetos que resgatam a tradição estabelecida pelos arquitetos imigrantes vindos ao Brasil no pós-guerra, trazendo qualidade à mesmice neoclássica instalada na cidade. Sozinha, a arquitetura não é capaz de modificar o espaço urbano, mas é a espinha dorsal para qualquer transformação de qualidade. Que a lição deixada por Franz Heep ecoe pelas próximas décadas, para que tenhamos uma cidade mais humana, mais plural e mais amigável quanto aos novos lançamentos imobiliários.


Marcelo Barbosa
é arquiteto, sócio fundador do Bacco Arquitetos Associados, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, vice presidente da AsBea (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura) São Paulo e está escrevendo um livro sobre Adolph Franz Heep

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