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Arquitetura 15.10.2017 — 11:10 pm

Arquitetura pode ser política?

Reproducão
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP
Martin Corullon é arquiteto e urbanista, cofundador do Metro Arquitetos Associados, responsável pelos projetos de expografia e infraestrutura do MASP e professor da Escola da Cidade

É possível que um edifício tenha efeito político? Até que ponto é possível ser que a arquitetura seja politicamente atuante sem fazer parte da estrutura formal de poder? A arquitetura é uma profissão com dimensão política? Estas questões têm sido cada vez mais frequentes e relevantes para nós, arquitetos, especialmente se considerarmos o momento de retrocessos de políticas mais inclusivas, não apenas no Brasil.

Desde a crise financeira de 2008, grandes empreendimentos e investimentos nas cidades passaram a ser questionados sobre seus reais interesses, especialmente quando parecem priorizar o privado em detrimento do público. De lá para cá, emergiram movimentos ativistas que defendem o direito à cidade e um espaço público acessível e ativo. Mas mesmo em um processo e debate tão intenso e importante, a participação dos arquitetos têm sido tímida. Muitas vezes eles acabam reconhecidos apenas como prestadores de serviços, procurados para resolver problemas pontuais ou submetidos a uma lógica de produção do espaço distante de uma visão mais generosa e democrática.

Pretendo, a partir dessas premissas e em uma série de ensaios breves que se inicia aqui, comentar como a arquitetura tem lidado com a sua dimensão política através de algumas experiências recentes no Brasil e no mundo. A prática da arquitetura carrega diversas contradições. Ela não é política na medida em que depende da construção de consensos, de atender a demandas predefinidas, adequar-se a orçamentos, mediar conflitos entre clientes, usuários, leis municipais, normas, órgãos de preservação e tantos outros agentes envolvidos no processo.

Por outro lado, todo objeto fabricado ou construído carrega uma determinada visão de mundo. A forma, os materiais e suas qualidades, os modos de usos nele implícitos revelam e influenciam diferentes formas de viver. Nesta segunda definição da arquitetura, é possível identificar um campo de atuação com grande carga política.  Os objetos arquitetônicos podem ser dotados de uma potencia concreta e física, separada de retóricas e ideologias, que influencia a experiência de quem os usa estes espaços para além de uma visão funcional.

Bruna Canepa e Ciro Miguel

Masp murado

Há no Brasil uma tradição arquitetônica que carrega essa potência transformadora. Projetos como o da marquise do Ibirapuera, o vão livre do Masp ou o salão central da escola de arquitetura da USP são grandes lugares sem função predeterminada, mas abertos a diferentes usos e atividades, permitindo uma transformação permanente.

São espaços democráticos e significativos para as comunidades que os frequentam e que se tornaram lugares vivos e diversos por suas características físicas, localização, acesso, abrigo do sol e da chuva e dimensão generosa — e não pela determinação a priori de sua função. Eles guardam pistas sobre como é possível expor e mediar os conflitos de nossas cidades, cada vez mais excludentes, sem negar ou esconder os problemas e contradições existentes. São exemplos de como um edifício pode atuar politicamente de modo efetivo.

Arquitetos devem aprender a integrar-se a novos arranjos produtivos, como processos participativos ou colaborativos, sem deixar de reivindicar um lugar de atuação a partir de seu ofício, de sua capacidade de projetar e do conhecimento técnico que possuem. Essa prática, revigorada pelo desejo de transformação, é um caminho de atuação política sem a contaminação pelos discursos desgastados da política convencional.

Martin Corullon é arquiteto e urbanista formado pela FAU-USP e vive e trabalha em São Paulo. Em 2000 fundou o escritório Metro arquitetos associados. É também responsável pelos projetos de expografia e infraestrutura do MASP desde 2015, incluindo a reconstrução dos cavaletes de cristal, de Lina Bo Bardi. Dá aulas de projeto na Escola da Cidade.

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