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Arte e cultura 15.10.2017 — 5:52 pm

A arte pública é uma arma pública contra a ignorância

Reprodução
Curador e esteve por trás de algumas das principais mostras de arte no Brasil. Foi o responsável por museus como o Museu da Língua Portuguesa, o Museu do Homem Americano e o Museu das Telecomunicações. Dantas realizou exposições de artistas como Christian Boltanski, Anish Kapoor, Gary Hill, Tino Sehgal, Rebecca Horn, Bill Viola e Laurie Anderson – além de projetos internacionais, como o Museu do Caribe em Barranquilla (Colômbia) e a Bienal de Vancouver 2014. Ele é ainda curador e diretor de programação da Japan House São Paulo

Os eventos marcantes das últimas semanas de censuras e agressões a museus e artistas nos obrigam a pensar o que têm acontecido na relação do público em geral com a arte contemporânea. Essa dissociação entre o público em geral e os frequentadores de museus que valorizam a arte contemporânea reflete o contraste entre uma parte da população que anseia o futuro e uma parte que é nostálgica de uma era de trevas.

É curioso que essas pessoas que desejam obscurecer o país são em sua maioria jovens que não viveram nem entenderam o que foi viver sob uma ditadura. Esse descompasso é a cara do Brasil, o país do desperdício, da falta de memória e das soluções fáceis e improvisadas. Num país onde 92% das pessoas nunca foram a um museu, faz-se necessário pensar o importante papel que a arte pública poderia ter para sensibilizar visualmente o grande público para o universo da arte contemporânea.

Quase todas as grandes metrópoles do mundo têm um projeto de arte pública que visa ocupar o território simbólico das cidades com as ideias da arte do seu tempo e desafiar o público a decifrar aquilo que parece enigmático nos museus e galerias. Essa prática é extremamente civilizatória. Ela proporciona o diálogo e introduz repertório ao cidadão comum, distante das questões das artes visuais, mas nunca indiferente às questões do território urbano.

Essa tensão entre as múltiplas apropriações e leituras que a arte pode trazer do patrimônio histórico, do espaço público, da geografia e da paisagem é uma oportunidade única de abrir a cabeça das pessoas e gerar uma zona de encontro entre as faces divergentes da sociedade.

São Paulo é uma das poucas grandes cidades do mundo que não conta com um programa de arte pública regular e sistemático. Programas assim já existem há quatro décadas pelo mundo, de Nova York a Münster, de São Francisco a Vancouver, de Paris a Londres e ao Rio de Janeiro. Todas essas cidades mudaram significativamente a relação do público com a arte e seus artistas. Elas também ganharam uma imagem internacional ativada pela relação da arte com a paisagem urbana, ressignificada por ela.

O grafite é a forma latente e espontânea pela qual a arte transborda e se infiltra em São Paulo. O grafite passou a ser destino turístico na cidade em locais como o Beco do Batman, na Vila Madalena. Imagina se houvesse uma ideia sistemática de oferecer uma oportunidade profissional para se produzir arte no espaço público da cidade.

Um dos maiores problemas da imagem internacional de São Paulo é a falta de elementos ícones de sua urbanidade. A cidade oferece poucas oportunidades de interpretar sua pele urbana e sua identidade metropolitana. A arte poderia ajudar muito nisso.

Desde 2014, eu sou curador sênior da Bienal de Vancouver no Canadá, uma bienal em que uma agenda firme de arte pública ajudou a gerar espaços de convivência e convergência e a simbolizar a identidade diversificada e multicultural da cidade. Lá, a agenda é sensibilizar pessoas de origens culturais e étnicas diversas com a arte daqueles que também habitam esse lugar. É criar uma base comum de contato em que a arte é o ponto de encontro e de interlocução de pessoas que não falam a mesma língua.

A arte infiltrada nas esquinas, becos, praças e avenidas — surpreendendo o cidadão e nos fazendo enxergar a cidade de uma outra forma — é uma excelente maneira de educar e aproximar o público do poder da arte de mudar o sentido e o valor das coisas. É também uma forma de nos fazer reconhecer a identidade e o pensamento de pessoas que são diferentes de nós, expandindo o circulo de entendimento do mundo.

Um projeto de arte pública para as grandes cidades brasileiras poderia abrir a cabeça de pessoas que, por não se sentirem incluídas no território da arte contemporânea, não veem problema no fechamento de museus, pois eles não servem a nada para quem não é tocado pela arte. A única estratégia para vencer a ignorância é a inteligência generosa.

Marcello Dantas é curador e esteve por trás de algumas das principais mostras de arte no Brasil. Foi o responsável por museus como o Museu da Língua Portuguesa, o Museu do Homem Americano e o Museu das Telecomunicações. Dantas realizou exposições de artistas como Christian Boltanski, Anish Kapoor, Gary Hill, Tino Sehgal, Rebecca Horn, Bill Viola e Laurie Anderson – além de projetos internacionais, como o Museu do Caribe em Barranquilla (Colômbia) e a Bienal de Vancouver 2014. Ele é ainda curador e diretor de programação da Japan House São Paulo.

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