*

Planejamento 14.10.2017 — 10:26 pm

Viver na cidade é como dividir um prato de comida

Reprodução
André Scarpa é arquiteto sócio do escritório Nitsche. Desenvolve trabalhos relacionados com fotografia de arquitetura e promove o Esquina a Passeio, com o Esquina

Ter um carro que comporte toda a família para aquela viagem de férias, enquanto no resto do ano quatro lugares vazios ocupam milhares de metros quadrados em congestionamentos. Ter um banheiro em cada quarto para que todos os moradores do apartamento possam usar seus vasos sanitários ao mesmo tempo.

Esses são apenas dois exemplos do que muitas pessoas consideram sonhos de consumo. Quando decidimos estar preparados para todas as circunstâncias, nos afastamos da ideia de cidade. Estar totalmente prevenido para qualquer eventualidade gera desperdício de materiais e de infra-estrutura — e também colabora com o abandono de áreas da cidade que não atendem a essas exigências.

Sustentabilidade tem menos a ver com muros verdes e mais com não abandonar construções inteiras. Não é por acaso que, quanto mais nos afastamos do centro, mais altas ficam as grades e mais estreitas ficam as calçadas. Desaprendermos a dividir e, consequentemente, a fazer cidade. Usufruir da cidade é mais ou menos parecido com compartilhar um prato de comida. Se nos propomos a fazer isso, temos de estar cientes de que não vamos comê-lo inteiro e nem vamos guardar um pouco pra depois. Mas não é por isso vamos deixar de apreciar a refeição.

Se analisarmos o sucesso da Paulista Aberta, ação que fecha aos domingos a principal avenida de São Paulo para carros e a abre para pedestres, perceberemos como estamos desabituados à apropriação do espaço público. Quer-se tudo de uma só vez e ao mesmo tempo, como se alguém nos fosse tirar esse privilégio a qualquer momento. Em quase três quilômetros de avenida, todas as atividades precisam ser possíveis, com o som mais alto do que o da próxima esquina — e há 13 cruzamentos para incrementar os decibéis a cada passo.

Nos mesmos domingos, ruas pavimentadas do centro paulistano, como a da Quitanda, São Bento, José Bonifácio ou Quirino Bocaiuva — onde os carros não passam inclusive durante a semana — estão vazias e em silêncio. É preciso encontrar equilíbrio e novas conexões entre os espaços da cidade. Não devemos nos espantar com a existência de limites para a utilização de áreas públicas.

No venerado High Line, em Nova Iorque, na lista de proibições afixada nos acessos, lê-se que não é possível entrar com bicicletas, skates, cães (com exceção dos cães-guia) e amplificadores de som. E o local continua a ser um dos mais visitados de Nova Iorque. O fato de um espaço ser público não significa que podemos fazer nele o que bem entendemos, e não é por isso que estamos sendo privados do nosso direito à cidade.

Quem sobe no Parque Minhocão, via expressa no centro da cidade aberta para o lazer nos finais de semana, não vai reclamar que há poucos acessos, que não há banheiros, que não há mobiliário urbano, que o asfalto é quente e que não há sombra ou trégua. Em todos os fins de semana existe um grande público que sabe o que o espera e está disposto a aproveitar as possibilidades que essa estrutura equivocadamente construída disponibiliza. Quem pede a sua demolição precisa lembrar que as seis pistas da Amaral Gurgel, São João e General Olímpio da Silveira não são menos limitadoras descobertas.

Recentemente o córrego Anhanguera aflorou no cruzamento da rua General Jardim com a rua Dr. Cesário Mota Júnior. Há várias semanas que o gigantesco buraco em obras impede a passagem de carros por esse trecho. As mesas dos bares, cafés e restaurantes aos poucos foram arriscando pôr os pés no asfalto e agora o espaço da rua está mais vivo do que a praça que ela contorna, ironicamente cercada por grades. Exemplos como estes provam que São Paulo é uma fonte inesgotável a ser explorada: só é preciso bom senso ao escolher os problemas que queremos resolver. É muito fácil encontrar problemas onde não há — ainda mais quando ajudam a postergar a solução dos que existem há muito tempo.


André Scarpa é arquiteto sócio do escritório Nitsche. Desenvolve trabalhos relacionados com fotografia de arquitetura e promove o Esquina a Passeio, passeios de arquitetura em São Paulo em parceria com o Esquina

Tags:,

Bitnami