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Planejamento 14.10.2017 — 10:22 pm

A beleza como medida de uma cidade

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Alvaro Puntoni é arquiteto, doutor e professor pela FAU USP. Leciona na Escola da Cidade e é sócio do escritório GrupoSP

“A felicidade de um povo se mede pela beleza de sua cidade”. Com esta frase, o arquiteto Vilanova Artigas encerrou o memorial explicativo do projeto que desenvolveu para o Vale do Anhangabaú em 1973, em que entrelaçava os centros antigo e novo por meio de elegantes passarelas de pedestres em nível. Apesar da demanda inicial da prefeitura para que o projeto se restringisse ao vale, Artigas faz uma proposta mais ampla, focando o eixo norte-sul e interligando os rio Tietê e Pinheiro, onde o histórico vale cortava apenas um trecho.

Esta frase fica ecoando em minha cabeça todos os dias quando perambulo pelas calçadas — descontínuas, mal tratadas e constrangidas — do centro da cidade . Costumo também cantarolar mentalmente nestes deslocamentos a música Baby, de Caetano Veloso: “ Vivemos/ Na melhor cidade/Da América do Sul/Da América do Sul…”.

Claro que Caetano não estava com São Paulo em sua cabeça, apesar de ter composto a musica nesta urbe, mas eu estou! Subitamente, adultero a música (ainda em silêncio enquanto caminho) e introduzo: a “maior cidade da América do Sul”, a “mais rica cidade da América do Sul”. Sim, São Paulo talvez seja a cidade que mais concentra riqueza em nosso continente deste lado do Equador . Mas será que revela exatamente esta condição?

Esta convicção vai se esvanecendo ao olhar novamente para o passeio público, sem qualquer padrão, sujo, e ainda com todo tipo de lixo que advém dos transeuntes desavisados, desgastado pelo uso cotidiano, com falhas estruturais e desprovidos de mínima inteligência. Acima estão os postes que sustentam fiações intermináveis, de toda a sorte de serviços, uma verdadeira faixa privada e lucrativa sobre os espaços públicos que ainda nos restam, comprimidos de um lado pelo leito carroçável das ruas, os “rios de ferro”, e, do outro, pelo muro impermeável e pouco gentil da propriedade privada.

Mas falemos de riqueza. São Paulo concentra o maior número de pessoas ricas em nosso país, a oitava economia do planeta. Mais que isso: como toda cidade, é um dos componentes da base material que mais produz mais riqueza. E o que recebe de volta deste capital locupletado? Muito pouco! Quase nada é ofertado como retorno deste enriquecimento, como retribuição pelos “serviços prestados”. A cidade de São Paulo parece ser usada até seu limite e está se exaurindo, chegando em um momento temerário, pois está extremamente fragilizada, sem uma nítida base que sirva para alavancar a sua eventual recuperação.

Nenhuma capital da América do Sul apresenta um centro urbano tão deteriorado e decadente, com edifícios se dissolvendo. Aqueles que se enriquecem por aqui normalmente desfrutam seus ganhos em outras cidades nos países centrais, onde tudo aparentemente é melhor, mais seguro e mais bonito. Porções do mundo onde os povos são indubitavelmente mais felizes, se partimos da frase do Artigas. E se recusam olhar para sua cidade, seu lar, como se esta fosse apenas parte de um momento transitório de suas vidas. Uma relação totalmente predatória em relação a cidade, um sentimento claramente perceptível pela ausência da indignação ou pelo endurecimento dos corações: posso transitar pela dureza suja do ambiente da vida sem ter qualquer sentimento abalado.

Recentemente estive em Berlim, participando de um workshop que resultou em uma exposição Demo:Polis na Akademie Der Kunst. A preocupação dos coordenadores do evento era clara: estavam preocupados com o fato de que “apenas” 40% da superfície de Berlim seja destinada a espaços públicos. Apenas 40%! Em São Paulo, cuja superfície ocupa aproximadamente 1.000 km2 (quase 70% da área total do município), apenas 30 km² são destinados a parques. Ou seja, temos aproximadamente 3% de área pública em São Paulo. E vale lembrar que a maior parte é encerrada por grades! Na maior e mais rica cidade da América do Sul aproximadamente 75% da cidade é fechada e privada. Dentro deste muros, temos sempre o melhor e o mais sublime e quase nada dizemos do outro lado, o espaço de todos nós.

Muito precisamente o psicanalista (e pensador) Contardo Calligaris escreveu que talvez a maior constatação do ato brutal e estúpido que matou 59 pessoas durante um festival country em La Vegas no início de outubro seja a realização que o espaço público tornou-se perigoso, colocando em xeque as possibilidade da vivência comum.

Esse tipo de questão aflige nosso cotidiano. É importante podermos compreender como e quanto somos infelizes, para atestarmos como e quanto não somos belos — mas podemos ser. Afinal somos nós quem realizamos tudo isso e seremos somente nós que poderemos e deveremos transformar tudo isto novamente. O futuro é uma decisão que se toma agora. Mas antes é preciso querer.

Alvaro Puntoni é arquiteto, doutor (2010) pela FAUUSP, onde leciona desde 2002. Sócio fundador e Coordenador pedagógico e Coordenador da pós-graduação Geografia, Cidade e Arquitetura da Escola da Cidade. Mantém o escritório GrupoSP arquitetos

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